São João


Fogueira acessa com milho na brasa, comidas típicas, licores de diversos sabores e muito forró. Tudo isso seria realidade para este mês de junho se a Covid-19 não tivesse chegado no Brasil. Segundo informações do Ministério da Saúde, o primeiro caso da doença foi registrado no dia 26 de fevereiro, em São Paulo. O paciente era um homem de 61 anos, que havia retornado de uma viagem feita à Itália. Desde então tudo mudou...

Com o avanço da doença, diversos setores da economia tiveram que paralisar suas atividades, e com a cultura não foi diferente. Teatros tiveram que fechar suas cortinas, exposições foram adiadas, e aqui na Bahia os festejos juninos tiveram que seguir as determinações das autoridades de saúde e a única saída foi cancelar tudo.

Esta é a primeira vez, em 20 anos de carreira, que o cantor e compositor Del Feliz não vai subir aos palcos em pleno mês de junho. “É uma festa ressignificada, extremamente impactada por uma pandemia que modificou o mundo, algo nunca visto antes, tanto do ponto de vista econômico como de saúde pública e acho que todo mundo vai precisar refletir muito, a gente não sabe exatamente que mundo vamos encontrar, mas precisamos saber exatamente que mundo a gente quer construir”.

Para Del, mesmo com a proibição dos festejos, a música tem sido um alento para a população. “A força da cultura, a força da música tem sido instrumento para amenizar o sofrimento das pessoas. A gente vai encontrar um caminho, é a vida, as coisas são mutáveis, a gente vai naturalmente se moldando, se reconstruindo e tentando construir um mundo melhor, a cultura sem dúvida nenhuma faz parte daquilo que vai ajudar a construir um mundo mais saudável, mais rico e mais feliz”.

Impossibilitados de fazer shows, diversos músicos tem enfrentados sérios problemas financeiros, afinal de contas não há cachê a serem pagos. E é aí que a solidariedade ganha ainda mais espaço entre os colegas de profissão. “Desde que cheguei da Europa, no início da pandemia, o que mais tenho feito são lives solidárias e a grande maioria são para músicos, artistas, pessoas que vivem de arte porque é uma turma muito impactada. Cabe aos artistas, com sua sensibilidade, com o conhecimento que tem, com o trânsito que tem, a relação com as pessoas, com os seguidores, se mobilizarem. Utilizar um pouco da influência pra promover o bem”, completou Del. 

Valtinho do Acordeon

O sanfoneiro Valtinho do Acordeon é envolvido profissionalmente com música desde 2006. Integrou o “Forró 20 Xotear” e atualmente faz parte da banda “Virado no 70”, mas não depende só dela para sobreviver. Ele trabalha no setor de logística de uma empresa multinacional especializada em equipamentos eletrônicos, elamenta os prejuízos causados pela pandemia. 

 “A gente começa a trabalhar já no mês de abril. Começam as apresentações, shows em botecos e aí vai, só depois de São Pedro que acaba. É uma época em que somos bem procurados, principalmente sanfoneiro”, lembra. “É um cenário ruim porque na verdade nós músicos seremos os últimos a voltar ao mercado. Neste período de covid-19 para o trabalho não parar a gente vem fazendo lives que funcionam mais como divulgação do nosso trabalho”, disse. 

Em 2019 Valtinho fez cerca de 40 apresentações entre shows, festas privadas, escolas e eventos realizados por prefeituras. Ele afirma que a situação não é das melhores para quem vive só dos shows. “Muitos colegas tem reclamado, eles não têm outra renda, vivem exclusivamente de música e alguns estão inclusive passando necessidades”.

Economia baiana

Um levantamento feito pelo portal São João na Bahia apontou que uma banda de forró de médio porte chega a empregar 100 postos de trabalho, e cada emprego pode beneficiar até quatro pessoas. 

Ainda de acordo com o portal, mais de 300 municípios se mobilizam no mês de junho para a realização das festas de Santo Antônio, São João e São Pedro. São mais de 1 milhão de soteropolitanos, que deixam a capital rumo ao interior e outro 1 milhão que se deslocam entre as diversas regiões do Estado. Só em 2018, o governo baiano movimentou cerca de R$ 1 bilhão nos festejos juninos.

O que nos resta agora é a esperança por dias melhores. Pensamento positivo para que em 2021 a história seja completamente diferente, mais feliz, mais alegre, com forró e cidades do interior lotadas de visitantes. É como disse Del Feliz: "A gente vai encontrar um caminho".



fonte: bnews